Santa Catarina,
 
Por dentro dos televisores 3D
05/05/10
 Por dentro dos televisores 3D

   

Nesses tempos pré-Copa do Mundo, um sonho recorrente de consumo tem tomado as noites de quem gosta de eletrônicos - uma TV 3D. Independentemente de ser ainda absurdamente caro, de não haver conteúdo para se consumir e de ainda ser pequena a oferta de aparelhos no mercado mundial, o consumidor aficionado não consege parar de delirar com essa maravilha.

 

Mas, ao mesmo tempo, muitos se põem a matutar em qual é a mágica no funcionamento de um televisor com imagens tridimensionais.

 

Nossa visão estereoscópica (do grego stereós = sólido, e skopéo = eu vejo, eu olho) é um truque cerebral tão bem bolado e implementado que mal nos damos conta de sua importância. Para começar, caolho não vê em 3D, o que já é uma pista. Vejamos então um experimentozinho bem fácil.

 

Experimente por o dedo indicador na vertical a um palmo diante do nariz. Abra um olho e observe o visual, depois feche esse olho e abra o outro. Preste atenção no que é visto ao fundo, por trás do dedo. Pronto, provavelmente você já matou a charada. Cada olho enxerga coisas diferentes nessa cena. E o dedo serve como referência para comparar as duas imagens do que está ao fundo.

 

Por meio de algum cálculo maluco, impregnado no hardware do nosso cérebro e repetido continuamente em tempo real numa velocidade estarrecedora, essas duas imagens se mesclam o tempo todo, dando-nos a noção constante de volume, de espaço. Outro teste: feche um olho e tente passar uma linha por um buraco de agulha

 

Mas como é possível reproduzir esse efeito volumétrico numa TV, cuja tela é plana? É aí que entra a engenhosidade dos cientistas, que, no caso, tiveram que arranjar criativas mutretas para enganar nosso cérebro. Dentre essas sacadas, quatro delas são as mais usadas para implementar visualização de imagens em 3D.

 

ANAGLÍFICO - A primeira delas é baseada em anáglifos, figuras obtidas por uma imagem dupla, cada uma tomada de um ponto diferente correspondendo à posição de um dos olhos de uma pessoa. Duas imagens são impressas (ou projetadas, ou exibida numa tela) em duas cores contrastantes. O espectador utiliza óculos especiais passivo (apenas lentes, nada de eletrônica), com cada lente de uma cor - em geral azul e vermelho. E, com isso, seus miolos misturam as duas cenas, dando a ilusão de profundidade. A desvantagem imediata desse método é que as cores da imagem 3D percebida pelo espectador não são fidedignas.

 

POLARIZAÇÃO - Outra tecnologia 3D funciona por polarização. Um raio de luz é um feixe de ondas luminosas que se propagam em vários planos ao mesmo tempo.

 

Para entender essa ideia de plano de propagação, basta pensar em alguém segurando na ponta de uma corda comprida com a outra ponta presa a um gancho fixo na parede. Se mantiver a corda razoavelmente esticada e movimentar a sua ponta para cima e para baixo, a corda vai se ondular num plano vertical de propagação.

 

Se houver uma parede com uma ranhura vertical por onde passe essa corda, o sujeito poderá fazê-la oscilar normalmente no plano vertical. Porém, se mudar o movimento para o plano horizontal, a ranhura impedirá a propagação da onda.

 

Com a luz é a mesma coisa. Um feixe de luz polarizada vibra em apenas um plano. Suponhamos que uma luz tenha polarização vertical. Existem lentes chamadas polaróides que têm microrranhuras em apenas uma direção. Um polaróide com ranhuras verticais permitirá passagem de luz polarizada na vertical. Já um polaróide com ranhuras horizontais não deixará passar essa mesma luz.

 

É assim que funcionam os óculos 3D, também passivos, baseados em polarização. Uma câmera capta duas imagens, uma para cada olho, e cada uma delas é projetada usando um plano de polarização. Usando óculos com duas lentes polaróides com ranhuras ortogonais uma em relação à outra, o espectador verá com cada olho a imagem certa para aquele olho, e seu cérebro fará a "mixagem" das imagens, criando a visualização 3D.

 

SEQUENCIAMENTO POR FRAMES ALTERNADOS - A terceira técnica se chama sequenciamento por frames alternados e faz uso de óculos ativos, ou seja, dotados de um circuito eletrônico controlando seletivamente a opacidade das lentes. Ela funciona da seguinte maneira.

 

Também com duas câmeras (ou uma câmera com duas lentes), são captados fotogramas um para cada olho do espectador. Se um filme comum possui, por exemplo, 60 frames (fotogramas) por segundo, a captação para essa tecnologia fica sendo de 120 frames por segundo. Na exibição de um vídeo 3D, os frames são transmitidos intercalados, um para o olho direito, o seguinte para o olho esquerdo, e assim sucessivamente.

 

Mas se o espectador apreciar esse "trem" de frames com olho nu vai ficar zonzo, a imagem vai parecer desfocada. É necessário fazer com que cada olho enxergue o frame certo para ele. Isso é feito com óculos ativos, que tampam e abrem alternadamente cada olho de maneira sincronizada com a remessa de frames fornecida pela imagem.

 

Como essa comutação de abre-fecha é feita em velocidade super-rápida, o espectador nem percebe o pisca-pisca alternado e é iludido a enxergar a cena em 3D.

 

Essa tecnologia de sequenciamento por frames alternados é a mais em voga no momento, e a guerra entre os fabricantes está sendo travada nesse campo de batalha, onde LG, Mitsubishi, Panasonic, Philips, Samsung, Sharp, Sony e Toshiba estão se engalfinhando.

 

 

AUTOESTEREOSCOPIA - Existe ainda uma outra técnica que não requer óculos, nem passivos nem ativos. Aliás, essa coisa dos óculos é o maior empecilho à adoção rápida de TV 3D. Todos os fabricantes estão correndo feito loucos para uma solução sem qualquer tipo de óculos e a autoestereoscopia foi o mais perto que já se chegou disso.

 

O método usa pequenas lentes ou pequenos orifícios, mas as lentes são mais comuns. São lentes finas e compridas que acompanham o display na vertical, ao longo de sua altura.

 

Para um exemplo na horizontal, basta lembrar daquelas réguas de criança que, movimentando-as suavemente, fazem aparecer nelas duas imagens ou desenhos diferentes dependendo do ângulo de visada. O conceito empregado é o de "impressão lenticular" ( bit.ly/aDBNzZ ), ideia que remonta a 1908, atribuída ao físico franco-luxemburguês Gabriel Lippmann.

 

Numa TV autoestereoscópica, as lentes da tela do aparelho criam múltiplas regiões alternadamente repetidas em frente ao display. Em cada região dessas, um olho recebe uma imagem ligeiramente diferente da do outro, dando a ideia de volume à imagem. E como são várias regiões "quentes", diversos espectadores podem assistir ao programa em 3D ao mesmo tempo, bastando que fiquem lado a lado diante da tela.

 

O inconveniente é que, se o espectador não estiver exatamente na posição correta, a imagem pode lhe causar mal-estar, tonteira e dores de cabeça. Diante disso, alguns monitores experimentais chegaram à sofisticação de integrar circuitos que acompanham a posição da cabeça do espectador, fazendo com que a região otimizada da imagem se mova de acordo com a pessoa. Só que, para vários espectadores, esse expediente se complicaria bastante.

 

A Sharp e a Philips eram as que mais tinham se adiantado nessa tecnologia, sendo que a segunda chegou a apresentar uma linha de produtos chamada WOWvx, tendo lançado o primeiro televisor 3D em alta definição, com imagem de 3840×2160 pixels e 46 regiões "quentes" diante da tela. Lançou depois um outro modelo mais modesto, com apenas nove regiões, mas acabou abandonando essa tecnologia em março de 2009, embarcando na voga dos frames alternados, pelo menos até que não apareça um outro formato mais promissor.

 

Já a Toshiba Mobile Display deu a volta em todas as outras ma terça-feira passada. Abrindo mão da megalomania dos telões gigantescos, ela lançou um display autoestereoscópico 3D de apenas 21 polegadas com a modesta resolução WXGA (1280 x 800 pixels). Esse televisor utiliza uma tecnologia chamada "Integral imaging" com design "9-paralax" (nove regiões quentes), ângulo de visão de cerca de 15 graus na horizontal e brilho de 480 candelas por metro quadrado. Detalhes em bit.ly/doXNs8 .

 

Mas nem tudo são flores na experiência 3D televisiva...

 

A indústria cinematográfica andava meio mal das pernas, com os DVDs atendendo aos desejos do consumidor preguiçoso que passou a preferir ver seus filmezinhos em casa, apesar da tela pequena da TV.

 

Surgiu então o cinema 3D, enchendo bem mais as salas de projeção, para alegria das produtoras hollywoodianas. Só que os fabricantes de eletrônicos não deram trégua, e assim pintou a TV 3D que - disso ninguém duvide - invadirá os lares mais abastados a partir de meados de 2011. Com a massificação da produção, o preço gradativamente cairá e em breve até nosotros teremos na sala aparelhinhos de entretenimento tridimensional.

 

O potencial desse mercado é absolutamente monstruoso, tão grande que até os grandalhões da indústria se viram na necessidade de armar parcerias de peso para atender à demanda, unindo a produção de aparelhos à criação de conteúdo. A Panasonic, por exemplo, associou-se a Best Buy, DirecTV, Skype, AEG Digital Media, 20th Century Fox e Lightstorm Entertainment; a Sony se aliou a FIFA, Discovery Channel, PGA Tour (golfe), Real3D e IMAX; Mitsubishi firmou parceria com NVidia e MHD (canal da MTV em alta definição); LG se aliou à Sky; e Philips à XpanD, entre vários outros acordos.

 

Aqui no Brasil, já anunciaram modelos de TV 3D as fabricantes LG e Samsung (ambas com lançamentos em maio), Sony (agosto), Philips (setembro) e Panasonic (até o final de 2010). Algumas ainda não divulgaram preços, mas, no geral, eles vão de R$ 6 mil a R$ 16 mil. Nas lojas Fnac, modelos Samsung já estão em pré-venda.

 

Modelos Panasonic, já já, só nos EUA, a partir de US$ 2.600. A Mitsubishi, por sua vez, já está lançando uma 3D animalesca lá no Tio Sam, 82 polegadas, a US$ 5 mil.

 

Mas não adianta o brasileiro ter pressa e sair feito louco comprando TV 3D, a menos que o dinheiro esteja realmente sobrando. Primeiramente porque, como em qualquer tecnologia que explode no mercado, os primeiros aparelhos e mídias sempre custam os olhos da cara. Em segundo lugar, ainda não temos aqui no país programação televisiva regular em 3D. E quando tivermos, será inicialmente via TV a cabo, pois ainda não se definiu um padrão para 3D via TV digital terrestre.

 

Portanto, para consumir visuais tridimensionais aqui no rincão auriverde, o jeito será, primeiramente, comprar um tocador Blu-ray 3D e adquirir títulos importados que, tais como as TVs, serão de início absurdamente caros por aqui.

 

No geral, porém, essa coisa de usar óculos para ver TV ainda é algo que nos entala na garganta. Será que nos acostumaremos à meia-luz e aos óculos ativos que (pelo menos por enquanto) são recomendáveis para desfrutar da experiência 3D em casa?

 

Ver televisão é um rito social já quase tradicional, algo para se fazer junto com a família e os amigos, permitindo interrupções para papinhos e pitacos e, às vezes, até algum multiprocessamento, seja jantando, internetando no laptop, mandando SMS ou dando de mamar para o bebê. Num ambiente assim, óculos são um estorvo.

 

Imagine daqui a quatro anos, Copa de 2014. Como será chamar um monte de amigos para curtir o jogo da Seleção na sua casa em 3D? Cada um traria seus óculos ou você compraria um par para cada convidado? Alugaria? Pode ser.

 

Fora isso, ainda não há estudos de longo prazo quanto aos riscos à saúde ocasionados pelo hábito prolongado de ver TV em três dimensões. Já são conhecidos os riscos de dores de cabeça, desorientação, náuseas e vista cansada.

 

A própria Samsung, justiça seja feita, deu sua cara a tapa, divulgando um alerta quanto aos perigos de ver TV 3D (vide bit.ly/crFLNm ), abordando questões sobre lâmpadas fluorescentes por perto, riscos de ataque epiléptico, convulsões, cãibras e danos à visão, entre outros efeitos horripilantes.

 

Carlos Alberto Teixeira - O Globo

O Globo
[ voltar página ] . [ imprimir notícia ]